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No fundo, eu acho, que eu deveria te agradecer. Não por você ter sido ruim, insensível, maldoso, frio, calculista, covarde ou infiél, não por isso. Mas por ter me mostrado, de uma certa forma, que muito embora você tenha usado os quatro últimos anos das nossas vidas pra destruir a minha como eu a conhecia antes, eu ainda fui capaz de sair do seu lado – ainda que incompleta – não destruída. Tenho que te agradecer porque o seu medo de se entregar para o amor total não acabou com a minha vontade de acreditar nele. E tenho que te agradecer também por – através de um método cruel – ter me ensinado que, na vida, é preciso se ter cautela.
Se hoje eu sento aqui e consigo olhar pra ele com olhos curiosos e, ao mesmo tempo, cuidadosos, eu devo isso a você. Se hoje percebo que ele me quer de uma maneira verdadeira, sem trapaças e com promessas de amor que serão cumpridas, eu devo a você. Se hoje sou capaz de atitudes que nunca fui na minha vida porque você tinha prazer em me fazer insegura e ter me mostrado que numa escala do que eu não quero emocionalmente pra mim, você é um extremo, ele o outro, devo a você também.
Quero dizer que minha vida era boa antes de você, mas que ficou muito melhor depois que você foi embora e, quando eu te desejo felicidade, eu não falo por falar, eu acho mesmo que ambos estamos melhores separados. Mas preciso muito, antes de mais nada, com a maior sinceridade que já tive na minha vida que te saudar por me mostrar que o nosso amor era ruim, mas nem todo amor tem que ser.
Te vi outro dia pela janela, lá estava você fazendo as mesmas coisas, com a mesma barba mal feita que fui eu que te ensinei a deixar no rosto. Estava lá você com as suas roupas que fui eu quem escolhi, sorrindo um sorriso que eu conheço bem, sei exatamente a distância do seu lábio à gengiva aos dentes. Sei os milímetros. Lá estava você, exatamente do jeito que eu deixei, através daquela mesma janela de vidro, parado no tempo. E eu sei que você vai continuar lá, fazendo os mesmos movimentos que eu já sei com as suas mãos machucadas pelo tanto que você cutuca tudo com elas. Eu te mudei e você não vai mudar porque é assim que você sabe ser, contentando-se naquela medianidade, mediocridade que – pra mim – não dá tesão porque é justamente na certeza das coisas que a gente se acostuma a fazer de olhos fechados que o mundo deixa, então, de ser visto.
Eu fui embora de você e, agora, eu mando todo mundo embora de mim porque decidi que quero ser uma rua de passagem ao invés de uma viela sem saída. Um dia quem sabe alguém que goste de cinema, de arte e de música boa chegue aqui e, meio que sem dar muita bandeira, comece a cobrir os postes com fotos de coisas e pessoas incríveis, escrevendo no chão cartas de amor não brega. Talvez ele chegue e traga pessoas pra socializar no meio de uma festa colorida e, aí, sem perceber eu vou acabar fechando de novo a rua com árvores e portões flexíveis, pra fazer a comemoração pela vida ser privada.
Quando você abre os braços pra vida, amores de morte perdem o lugar no abraço. Continue sorrindo, mantendo a sua barba e tente achar uma camisa do mesmo tom que tem a de agora quando essa desbotar e eu não estiver mais aí pra escolher outra pra você. Logo, logo – eu sei – você bloqueia outra cabeça, outra casa, outra vida. No meio tempo eu vou estar aberta, livre e olhando tudo o que tem em volta de mim. Nossa felicidade nunca ia ser a mesma, hoje eu vejo, já que seu amor é cheio de bloqueio, e o meu cheio de curiosidade. Sejamos felizes, você explorando o amor de alguém e eu, a vida.